Museu da impaciência

Publicado em história, voar às 12.02.09 por APD


E deito um cigarro meio fumado fora
Para irremediavelmente acender um novo cigarro

Impaciente até à angústia,
Como quem espera numa estação dos arredores

O comboio que há-de trazer ah tão talvez, quem talvez venha

Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes), Lisboa: Estampa, 1993

Imagem de Nuno Manuel Baptista

JPG como DJ

Publicado em Uncategorized às 10.02.09 por APD

A WordPress bem tenta lixar a vida aos utilizadores, mas há sempre maneira de dar a volta ao “texto”, como se vê com este caso.Com que então, era impossível publicar o “widget” da Blip.fm, hem? Pois aí está ele.

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Museu da tabacaria

Publicado em história, voar às 10.02.09 por APD

(…)
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Excerto de “Tabacaria” de Álvaro de Campos, 15-1-1928

Museu das baforadas

Publicado em história, voar às 08.02.09 por APD

Ao cigarro

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?

Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !…

Sim; – já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!

Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.

Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.

Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
Es tu só, meu cigarrito.

Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?…
E uma profanação,
Que o bom gosto não atura.

Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.

O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!…

Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.

Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.

És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.

Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.

Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.

Rio de Janeiro, 1864
Bernardo Guimarães (1825-1884)

Imagem de The CellarLight

E pode ser cigarreira

Publicado em blogs, gadgets, permitido às 03.02.09 por APD

Um Ipod estragado pode ainda acondicionar os cigarros em perfeitas condições de segurança. A isto chamo tecnologia limpa e reciclável.

Último desejo

Publicado em cartoon às 30.01.09 por APD

Fumar de luvas

Publicado em blogs, gadgets, permitido às 27.01.09 por APD
Com os dias frios que correm, os fumadores obrigados a manter o hábito ao frio, à chuva e ao vento que raras foram as empresas que criaram espaços para o efeito já que a porta da rua é serventia mais barata, podem minimizar os prejuízos resultantes das mudanças de temperatura usando luvas. Luvas sem dedos.

E se os modelos acima porventura sugerirem uma atitude efeminada é sempre possível encontrar umas luvas desportivas para quaisquer mãos másculas.

[encontra-se aqui a forma de tricotar as luvas]

Poemas e cigarros

Publicado em voar às 25.01.09 por APD

Do tempo em que havia uma poética dos cigarros. Nesse tempo longínquo de há um ano e pouco.

A insustentável leveza do fumo

Publicado em lei, permitido, proibido, saúde às 20.01.09 por APD

A sabedoria popular diz-nos que temos de ser uns para os outros e vem isto a propósito de um amigo meu não-fumador que desde a semana passada anda acabrunhado e cabisbaixo. Há um ano atrás rejubilou com a lei anti-tabaco certo de pertencer à maioria saudável deste país que apontava o egoísmo à minoria dos fumadores e justamente os punia socialmente quanto mais não fosse porque o irritava particularmente respirar o fumo deles quando degustava o seu bifinho com muito molhinho e batatas fritas e uma concha de arroz ou porque quando ia desopilar à noite ficava com o cheiro a fumo entranhado na roupa que tinha de ir logo tudo para lavar e até para a limpeza a seco.

Só que nas notícias teve conhecimento de um estudo de uma faculdade, com toda a seriedade que isso comporta que conclui que os gases lançados pelos veículos automóveis, compostos de substâncias todas elas cancerígenas, afectam toda a atmosfera, inclusive os locais onde o fumo não é permitido, e consequentemente, toda a população, incluindo as criancinhas que ainda aprendem a circular em ranchos ordenados a pé pelas ruas em saídas lúdicas dos infantários ou até em visitas de estudo. E ele que tem no seu carrinho o seu ai-jesus e já nem seria capaz de ir ao café da esquina sem ele, tal a relação íntima que ao longo dos anos se desenvolveu entre eles, começou a imaginar cenários em que catrefas de médicos o aconselham a seguir um programa de desintoxicação da viatura com muitas caminhadas a pé, em que as viaturas são impedidas de entrar nas cidades e os cidadãos são obrigados a circular em transportes públicos, em que se vê relegado para uma situação quase clandestina de ligar o seu automóvel e assentar as mãos no volante apenas na privacidade da garagem que felizmente no seu prédio ainda são individuais, tudo a bem da saúde de toda a população e sente-se um individuo a quem arrancaram metade de si.

Foto de Cristina Grosso, 2008

O cantinho do castigo

Publicado em lei às 15.01.09 por APD

Quando menina e moça ia à escola ainda era vulgar colocar de castigo os meninos que se portavam mal exilando-os a um canto da sala. E de acordo com relatos de minha mãe, ainda antes era comum acrescentar a prática de coroar o castigado com umas orelhas de burro confeccionadas em cartolina para provocar a troça dos seus pares.

Estas recordações surgem-me agora a propósito da Lei nº 37/2007, sorridente como um bebé por ter acabado de comemorar o seu primeiro ano de vida porque desde a sua entrada em vigor na vida dos portugueses obrigou as escolas públicas a escolher um caixote mais asadinho dos existentes na instituição e em alguns casos, até um vaso grandinho com uma planta, para não se entrar em mais despesas, e numa pedagogia de crime e castigo desterrou os professores fumadores para um cantinho do lado de fora do portão da escola.

Foto de René Maltête